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Universalização: Novo desafio do ensino médio - Andréa Antunes


O crescimento no número de matrículas no ensino médio registrado nos últimos anos - entre 1996 e 2007, passaram de 5.739.077 para 8.369.369, um aumento de 41,7%, segundo dados do Inep - ganhou um incentivo a mais com a Lei 12.061/09, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no dia 27 de outubro. De acordo com a lei, a partir de 2010, cabe ao Estado garantir o acesso ao ensino médio gratuito. A medida foi bem recebida no meio educacional, mas com a garantia da vaga novos desafios estão colocados para governos, escolas e educadores. Um dos principais é reter este aluno na escola. Presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) e secretária de Educação do Estado do Paraná, Yvelise Freitas de Souza Arco-Verde vê a medida como uma sinalização de que estamos avançando na educação. "A lei mostra que temos mais estudantes concluindo o ensino fundamental, o que é positivo.
É claro que ainda temos crianças fora da escola, mas avançamos neste sentido. Agora, o desafio é pensar como manter este jovem na escola", diz a secretária, que acredita que com a nova lei o desafio será ainda maior. "A escola terá que se preparar para lidar com um novo aluno.
Aquele jovem que antes não chegava à escola e que tem outros interesses. É preciso descobrir o que ensinar para este novo aluno; fazer com que a escola seja interessante para que ele permaneça. Essas são questões que estão postas para os próximos anos", afirma Yvelise Arco-Verde.
A falta de mão-de-obra e a infra-estrutura das escolas também são obstáculos a serem superados nos próximos anos, mas não são problemas para a execução da lei. "É claro que se tivéssemos um grande aumento na procura por vagas, as redes estaduais não teriam condições de atender à demanda. Mas acredito que a procura irá aumentar aos poucos. Com isso, não haverá problemas para o cumprimento da lei." A evasão escolar também preocupa o presidente da Confederação Nacional de Trabalhadores em Educação (CNTE), Roberto Franklin Leão. "Este é um dos grandes problemas do ensino médio. Temos que repensar este segmento de ensino para torná-lo mais atraente. Não adianta garantir a matrícula se o jovem não ficar na escola." Na opinião de Franklin Leão, o ensino médio está defasado e não motiva o estudante. "Esta é uma fase de definição para os jovens. É preciso capacitá-los para atender às necessidades do mundo em que vivem. Um mundo marcado cada vez mais pela velocidade. Não podemos preparar o jovem para executar apenas uma profissão. Até porque as profissões estão mudando muito rapidamente. É preciso dar a ele uma formação geral para que possa transitar com tranquilidade neste mundo."
Doutora em educação e professora do programa de pós-graduação da universidade Gama Filho, Nilda Teves defende a universalização, mas destaca que ela traz a reboque uma série de dificuldades. "Quando se universalizou o ensino fundamental tivemos uma queda na qualidade. Isso aconteceu porque antes, como as turmas eram pequenas, a relação professor-aluno era muito mais próxima. Além disso, as famílias eram mais presentes na educação. Hoje, a realidade é outra. O número de alunos aumentou muito e os pais estão mais voltados em garantir a subsistência da família. Isso gerou uma dificuldade. Temos que estar atentos a estes aspectos quando falamos em universalização."
Para garantir um ensino de qualidade, Nilda Teves defende o investimento no professor e na escola. "Não basta fazer treinamento, capacitação. É preciso garantir melhores salários e condições dignas."Assim como a secretária de Educação do Paraná, a educatora acredita que é primordial debater como deve ser a escola do século XXI. "Os jovens de hoje são midiáticos e movidos pelo desejo. Querem tudo rápido, não têm paciência. Como fazê-los esperar mais três anos para concluir o ensino médio antes de ingressar no mercado de trabalho e conseguir dinheiro para comprar a blusa da moda?", questiona Nilda Teves, que vê nesta questão o desafio do ensino médio universalizado. "A juventude tem desejos sociais. O jovem quer diversão e arte. É preciso fazer do ensino médio algo atraente para que seja desejado por esses jovens. Do contrário, não adianta universalizar porque não haverá procura." A Lei 12.061/09 - Sancionada no dia 27 de outubro, a nova lei altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9.394/96), que até então obrigava o poder público a garantir somente o acesso ao ensino fundamental - que é responsabilidade dos municípios. Agora todos têm direito ao ensino médio, que é obrigação dos estados. Os custos da medida, em princípio, são de responsabilidade dos estados.

Folha Dirigida, 12/11/2009 - Rio de Janeiro RJ

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