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A Educação aos olhos da sociedade

Divulgado no último dia 11 de novembro, um levantamento do movimento Todos pela Educação e da Fundação SM revelou a opinião da população sobre alguns aspectos da educação. Intitulada "A participação dos pais na Educação dos filhos", a pesquisa ouviu 1.350 pessoas da população de Regiões Metropolitanas (Bahia, Ceará, Pernambuco, Distrito Federal, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo) e Interior (municípios com mais de 50 mil habitantes nos mesmos estados citados). Para as instituições que encomendaram a pesquisa, os resultados auxiliam a ampliar os conhecimentos sobre a percepção da população no que diz respeito à participação dos pais na educação dos filhos. Com base nos resultados obtidos, será possível pensar e desenvolver ações que contribuam para tornar mais efetiva a participação da família no processo educacional e, assim, melhorar a qualidade da educação no Brasil. Perguntados na pesquisa sobre as instituições e pessoas capazes de melhorar a Educação, a maioria da população afirmou que isso seria papel do Ministério da Educação, seguido dos pais (em segundo lugar) e da diretoria da escola, das secretarias de Educação e dos professores, em terceiro.

Os resultados revelaram ainda que, de acordo com a população, para uma em cada quatro pessoas, o quesito mais importante para se ter uma boa educação no país é ter professores competentes e motivados. Abaixo deste item, em segundo lugar, a população acredita que a garantia de vagas na educação básica é também relevante para esta questão. Em seguida, ofertas de reforço escolar, transporte gratuito para ir à escola e a matrícula de crianças com necessidades especiais em escolas regulares contribuem, nesta ordem, para a boa educação. Na percepção dos brasileiros entrevistados, estas são as principais questões que devem ser observadas com maior cautela no âmbito educacional. Na visão do ex-representante da Unesco no país e atual vice-presidente do Instituto Sangari, Jorge Werthein, os problemas na educação no país são muitos. "Obviamente, ter professores competentes e motivados fazem toda a diferença na qualidade da educação. Se o profissional tiver condições de trabalho, salário justo, plano de carreira, ele estará mais motivado e mais contente para exercer sua profissão. Essa percepção é muito importante. Se não tivermos professores competentes, eles não poderão capacitar os alunos", diz o educador, para quem os problemas da educação vão muito além deste aspecto.

"Deve haver uma discussão sobre políticas públicas acerca do direito ao acesso à educação, do direito a uma educação de qualidade, professores bem formados, todas essas discussões são muito importantes. Porém, eu acho fundamental que, em um país como o Brasil, haja uma política de estado para a educação. Se ficarmos continuamente discutindo os problemas e não pensarmos em políticas educacionais a nível municipal e estadual, não vai haver uma solução", afirmou Werthein, criticando, em seguida, a falta de continuidade das políticas educacionais. "E ainda que houvesse uma continuidade, a duração desta política seria de quatro ou oito anos. É muito difícil ou impossível que uma política educacional dê certo se a duração dessa política estiver determinada", acrescentou Werthein. Para educadores, participação dos pais é quesito determinante na educação dos filhos - "A família seria um espaço social, uma instituição social onde aprendemos a socializar, a contruir afetos. Ali é o espaço de uma base moral, de princípios, onde aprendemos valores éticos e de caráter. A escola tem esse papel, mas ela não pode exercer esse papel sozinha, sem a ajuda dos pais", afirma a educadora Lia Faria, ex-secretária Estadual de Educação e diretora da Faculdade de Educação da Uerj. Outro dado que o levantamento mostrou é que mais de 80% dos pais que foram ouvidos afirmaram estar sempre atentos para que os filhos não faltem às aulas e nem se atrasem. Na pesquisa, os pais declaram também que acompanham sempre as notas dos filhos. Em contrapartida, quando perguntados sobre a fixação de horários para os estudos, apenas 53% disseram estabelecer e respeitar esses horários.

Embora iniciativas que levem a família para a escola sejam criadas por parte da instuição de ensino, muitas vezes os pais não comparecem. Muito desta ausência se dá por conta do cotidiano sempre cheio de compromisso e pela falta de tempo da família moderna. "O dia a dia dos pais é muito cheio de compromissos, atualmente se trabalha demais, não sobra tempo para nada. Prova disto é o número de crianças que acabam morrendo esquecidas dentro do automóvel. Os psicólogos e psicanalistas têm uma explicação de que não é muito bem o esquecimento, mas uma mudança de rotina. Com isso, nos damos conta do mundo em que estamos vivendo. Será que a escola tem de exercer esse poder, essa capacidade de estimular os pais para que eles participem mais da educação dos filhos, para que eles acompanhem a educação dos filhos? É preciso pensar se a nossa sociedade está sendo contruída de modo que as famílias tenham esse espaço de tempo para dedicar aos filhos", declara Lia Faria.

A mesma opinião é compartilhada com o professor João Pessoa de Albuquerque, presidente da Associação Brasileira de Educação (ABE). Para ele, os pais devem freqüentar a escola dos filhos e não apenas comparecer às reuniões onde são discutidos problemas e soluções sobre o aprendizado dos alunos. "À medida em que conseguimos trazer cada vez mais a família para dentro da escola é ótimo. O que acontece entretanto, realisticamente, é que a família que mais frequenta a escola é a família do segmento da educação infantil. À medida em que o ensino avança em seus segmentos a presença da família passa a ser mais rara e nós temos que ser criativos para atrair a família. A participação da família é absolutamente essencial na complementação do aluno. A escola deve pensar em iniciativas para atrair a família cada vez mais para a escola, não só para aquelas reuniões formais", afirma o educador. Lia Faria destaca, ainda, que sem a participação da família na educação de seus filhos, o trabalho da escola fica restrito. Para a educadora, o papel da escola deve ser complementado com a presença dos pais ou responsáveis pela criança. "É claro que tem educação, que é o que se busca na escola. Mas tem o outro lado que é o do afeto, do investimento na auto estima da criança e do jovem, que é fundamental que a família esteja junto. Então, a participação dos pais na educação é muito importante sim. Eu diria que é prioridade para que a criança e o jovem sejam bem sucedidos", opina a professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

"Pais não estão focados na aprendizagem" - Em entrevista à Folha Dirigida, o presidente executivo do movimento Todos pela Educação, Mozart Neves Ramos, ressaltou a importância da pesquisa para saber a opinião da população sobre aspectos da educação no país. Para ele,perceber como a sociedade enxerga o processo educacional, sendo parte dele, é fundamental. Mozart afirmou, ainda, que pesquisas como esta devem ter uma periodicidade. O educador pretende colocar a educação em pauta no ano que vem, quando acontecem as eleições. Entre outros aspectos, Ramos declarou estar satisfeito com o resultado obtido e em saber o que pensa a sociedade sobre os professores, em especial. E lembra que a participação da família é imprescindível no processo educacional. "É gratificante saber que os pais valorizam o professor, mas eles precisam participar mais. Os pais, de uma maneira geral, deixam a educação para a escola. No entanto, a educação tem que ser uma preocupação de todos. A família é absolutamente elementar na educação plena dos jovens. A escola tem que fazer sua parte sim, mas os pais também", declarou.

Folha Dirigida - Por que fazer esta pesquisa?
Mozart Neves Ramos -
As pesquisas sempre ajudam, não só os gestores, mas a sociedade a traçar políticas para melhorar a qualidade da educação. A pesquisa serve para termos uma percepção melhor sobre a educação a partir deste resultado. Queremos mobilizar a sociedade para melhorarmos a educação no nosso país.

Folha Dirigida - Haverá outras pesquisas como esta?
Mozart Neves Ramos -
Temos uma estratégia, uma parceria junto com o Ibope Inteligência, para regularmente fazermos pesquisas que nos ajudem a termos essa percepção e a chegarmos a determinados segmentos, como pais e professores. A idéia é pesquisarmos como a população e seus diferentes segmentos estão se vendo dentro do processo da educação. Estamos avaliando o planejamento de 2010, pois consideramos que é um ano importante, de transição e queremos botar a educação na pauta das eleições do próximo ano.

Folha Dirigida - Quais são as conclusões tiradas após esta pesquisa?
Mozart Neves Ramos -
Ficou muito claro que a figura do professor qualificado está sendo valorizada. Os pais atribuem ao professor uma boa educação. Por outro lado, eles não estão muito focados na aprendizagem dos seus filhos. A gente precisa trabalhar mais essa questão, precisa-se ensinar, ter uma boa aula, mas também é importante que o aluno aprenda. É gratificante saber que os pais valorizam o professor, mas eles precisam participar mais. Os pais, de uma maneira geral, deixam a educação para a escola. No entanto, a educação tem que ser uma preocupação de todos. A família é absolutamente elementar na educação plena dos jovens. A escola tem que fazer sua parte sim, mas os pais também. Os pais mostram também uma preocupação com a vaga na escola. Isso mostra a preocupação dos pais com a escola e em colocar o filho em uma escola de qualidade, já que não temos escola com igualdade de qualidade. E a família hoje já percebe isso através do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) da própria comunidade, mas algumas vezes não há vagas nas escolas de preferência.

Folha Dirigida - Esta pesquisa será levada ao MEC?
Mozart Neves Ramos -
O MEC recebe a pesquisa. A secretária de Educação Básica do MEC, Maria do Pillar, já teve acesso, assim como as secretarias municipais e estaduais de educação. Enviamos a pesquisa para a (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Ensino (Undime) e o Conselho Nacional dos Secretários Estaduais de Educação (Consed).

Paola Azevedo
Folha Dirigida, 01/12/2009 - Rio de Janeiro RJ

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